Saberes, práticas e o cuidado em saúde guarani mbya: diálogos entre corpo e tekoa
Nome Completo:
Bruna Freire de Carvalho
Unidade da USP:
Faculdade de Saúde Pública - FSP
Programa de Pós-Graduação:
Saúde Pública
Nível:
Mestrado
Resumo:
Esta dissertação é um convite sensível e urgente para repensarmos o que entendemos por saúde. Nasce da convivência direta da autora com as comunidades Guarani Mbya das Tekoa Paranapuã (em São Vicente/SP) e Nhanderekoá (em Itanhaém/SP). A partir desses encontros, construiu-se um processo de pesquisa participativa, baseado na pedagogia da autonomia de Paulo Freire, o que permitiu que o conhecimento fosse produzido junto às comunidades — e não apenas sobre elas. A saúde para os Guarani Mbya é uma vivência coletiva, espiritual, corporal e territorial, combinando o uso de ervas medicinais, espiritualidade, alimentação, contato com a terra e práticas comunitárias. Para eles, a floresta, os rios e a terra não são apenas recursos naturais: são parentes, seres vivos e sagrados, com os quais é preciso manter uma relação de cuidado mútuo. Esse modo de vida, chamado de Teko Porã (bem viver), é o eixo central da saúde e da resistência Mbya. A destruição ambiental, portanto, é também uma forma de violência contra os povos indígenas. Buscamos fortalecer essas práticas como alternativas reais ao modelo biomédico ocidental, muitas vezes ineficaz para lidar com a realidade desses povos. Os saberes compartilhados ao longo do estudo valorizaram a escuta dos mais velhos, a oralidade e o sonho como fontes legítimas de conhecimento. Esses saberes foram aplicados na criação de hortas e farmácias vivas com plantas medicinais, cultivadas e cuidadas coletivamente nas aldeias. Essa pesquisa contribui para a sociedade ao apontar caminhos concretos para transformar as políticas públicas de saúde indígena. Mostra que é possível — e urgente — construir um sistema de saúde mais sensível à diversidade cultural, que respeite as formas próprias de cuidado dos povos originários. A autora nos convida a refletir sobre a crise ecológica e espiritual que vivemos como sociedade, propondo uma existência com mais escuta, conexão, respeito e coletividade. Os impactos sociais incluem o fortalecimento da autonomia, por meio da valorização dos saberes tradicionais e da promoção de ações que contribuam diretamente para a soberania alimentar e sanitária das comunidades. A articulação com movimentos sociais e com o poder público também possibilitou a construção de propostas para garantir o acesso à saúde, à educação e à moradia, sem comprometer os modos de vida tradicionais. Os impactos culturais se manifestam principalmente no fortalecimento do reconhecimento dos Xeramoi e Xejary como detentores de um saber essencial para o futuro. A importância se evidencia na medida em que a crise ambiental, as desigualdades sociais e a fragilidade dos sistemas de saúde não afetam apenas os povos indígenas, mas toda a humanidade. E, se queremos encontrar novas formas de viver, precisamos escutar aqueles que há séculos cuidam da terra com sabedoria, resistência e amor. Essa pesquisa é mais do que um trabalho acadêmico, é uma prática de vida, um gesto de escuta e um ato político que nos convida a desacelerar, a olhar para a terra com reverência, a ouvir os mais velhos, a plantar junto, a sonhar coletivamente e, sobretudo, a entender que só há saúde onde há justiça, respeito, pertencimento e terra para todos.