Pelas ruas, eu vou: o carnaval do Recife e Olinda como lieu de mémoire urbano
Nome Completo:
Maria Paula Maciel
Unidade da USP:
Escola de Artes, Ciências e Humanidades
Programa de Pós-Graduação:
Estudos Culturais
Nível:
Mestrado
Resumo:
A memória sempre foi e continuará a ser uma questão de extrema importância. Pensá-la é um dever coletivo, especialmente em um país como o Brasil, onde o que é popular, periférico e tradicional muitas vezes sofre tentativas de apagamento em nome da modernidade, do consumo e da lógica do espetáculo. Porque, ao contrário do que parece, o oposto de lembrar não é esquecer — é desaparecer. É a morte simbólica de histórias, de modos de viver, de existências inteiras que sustentam nossa cultura. Minha pesquisa nasce dessa inquietação. Ela busca entender como o carnaval pernambucano, especialmente aquele que ocupa as ruas dos centros antigos do Recife e de Olinda, consegue resistir e se reinventar diante das pressões da indústria cultural, da espetacularização e das transformações sociais contemporâneas. Para isso, utilizo uma metodologia que parte da bricolagem qualitativa, combinando teoria e vivência, análise crítica e escuta sensível. O processo se organiza em dois movimentos complementares. No primeiro, chamado de "it", investigo como as relações entre cultura, memória e identidade operam na lógica do hiperespetáculo, estabelecendo conexões entre história, teoria e os processos de transformação que moldam o carnaval e a cidade. No segundo movimento, a "oralitura", mergulho nos relatos, nas memórias e nas experiências de quem faz o carnaval acontecer, através de entrevistas, observações e também da autoetnografia, colocando meu próprio corpo como parte da pesquisa e do território. Os resultados revelam que, embora o carnaval permaneça vivo, seus formatos estão em disputa. De um lado, cresce um modelo alinhado às lógicas do mercado, das redes e da espetacularização — o que denomino de carnaval do hiperespetáculo. De outro, persistem formas de fazer carnaval que reafirmam a participação, a coletividade e a memória, sustentadas principalmente pelas agremiações e pelos blocos que transformam as ruas em palco, resistência e território de transmissão cultural. Esse embate não é apenas sobre estética ou entretenimento, mas sobre memória, pertencimento e a própria possibilidade de existir enquanto coletivo. O impacto social dessa pesquisa está justamente em iluminar como as manifestações culturais populares, como o carnaval, são fundamentais para a construção da memória coletiva, da identidade e da cidadania cultural. Ao entender as ruas como espaços legítimos de produção de memória e de conhecimento, a pesquisa contribui diretamente para fortalecer ações de preservação, políticas públicas de cultura, práticas de salvaguarda e valorização dos saberes comunitários. Indiretamente, ela amplia o debate sobre quem tem o direito de contar a própria história e sobre como resistir aos processos de apagamento simbólico que, muitas vezes, atingem as populações periféricas, negras e populares. Afinal, enquanto houver quem cante, quem dance e quem conte suas histórias nas ruas, a memória segue viva — e a cultura também.