Nome Completo:
Francisco Manuel Moreno-Carmona
Unidade da USP:
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação:
Neurociências e Comportamento - NeC
Nível:
Doutorado
Resumo:
A Síndrome de Usher é uma doença genética rara que afeta estruturas ciliadas responsáveis pela audição, pelo equilíbrio e pela visão. Ela combina perda auditiva neurossensorial congênita ou precoce com degeneração progressiva da retina, e pode incluir alterações no olfato. Entre seus subtipos, a forma 1F resulta de mutações no gene PCDH15, que comprometem proteínas essenciais ao funcionamento das células ciliadas na cóclea e das células fotorreceptoras da retina. Neste estudo, investigamos a função visual do camundongo Pcdh15roda, modelo de Usher 1F. Esse animal apresenta uma mutação de splicing no gene Pcdh15 que gera uma Protocadherina‑15 truncada, prejudicando microestruturas chamadas tip links, indispensáveis para converter estímulos mecânicos em sinais elétricos nas células ciliadas, e afetando também componentes ciliares dos fotorreceptores. Como esperado para o fenótipo vestibular severo, esses camundongos exibem o comportamento de "rodar", além de perda auditiva profunda. Avaliamos a retina por meio da eletrorretinografia (ERG) e por meio da tomografia de coerência óptica (OCT). O ERG mede respostas elétricas da retina à luz; testamos condições de adaptação à baixa luminosidade (escotópicas; –3,7 a 0,3 log cd·s·m⁻²) e adaptação à luz (fotópicas). Em baixa luminosidade, observamos redução de 22,8% nas amplitudes das ondas -a e -b (componentes iniciais e tardios da resposta retiniana), aumento de cerca de 7,5% nos tempos de resposta e diminuição de 26,3% nos potenciais oscilatórios (sinais associados ao funcionamento das camadas internas da retina), sem mudança relevante na razão b/a. Em condições fotópicas, diferenças de amplitudes e tempos não atingiram significância estatística. A OCT não revelou sinais de degeneração estrutural, indicando que a disfunção funcional surge antes de perdas celulares detectáveis. Em conjunto, os achados mostram que, no Pcdh15roda, a via retiniana dependente de baixa luminosidade (bastonetes) está comprometida de forma precoce, enquanto medidas morfológicas permanecem preservadas. Isso reforça que alterações funcionais podem anteceder a degeneração visível por imagem, ressaltando a importância de estudos longitudinais para mapear a progressão temporal e esclarecer os mecanismos de deterioração. O modelo, portanto, é valioso para o desenho e a avaliação de intervenções precoces e direcionadas — como terapias gênicas e estratégias farmacológicas — visando tanto os déficits auditivos e vestibulares quanto a preservação da função e da integridade retiniana. Todos os procedimentos com animais seguiram as diretrizes ARRIVE, ARVO, CONCEA e CFMV, com aprovação prévia das CEUAs da FMVZ/USP e do IP/USP.