Metamodelagem digital multiescalar: estratégias para viabilidade inventarial
Nome Completo:
Fernando Birello de Lima
Unidade da USP:
Instituto de Arquitetura e Urbanismo
Programa de Pós-Graduação:
Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo
Nível:
Doutorado
Resumo:
Minha tese tratou da viabilidade da constituição de inventários patrimoniais em múltiplas escalas, fazendo uso de ferramentas digitais acessíveis. O ponto central foi estruturar um acoplamento conceitual e metodológico capaz de sustentar e viabilizar inventários de interesse histórico e cultural, mesmo em contextos de limitação técnica e informacional. A pesquisa articulou três pilares: 1 - O Viable System Model (VSM), da Cibernética de Segunda Ordem, que oferece uma lógica bottom-up de organização sistêmica; 2 - O campo da Design Science Research (DSR), que define modos de tipificação, avaliação e validação de artefatos; 3 - O workflow do Historic District Information Modeling (HDIM), que orienta o trabalho de integração entre diferentes plataformas digitais. Do acoplamento desses referenciais emerge a proposta de uma metamodelagem digital multiescalar. Essa metamodelagem não se limita a um único objeto, mas busca lidar com realidades que vão do território (macro) ao edifício ou monumento (micro), permitindo que mapas, fotografias, modelos 3D e bases de dados se integrem em fluxos coerentes de inventário. Para verificar essa proposta, foram realizados seis experimentos práticos: - O Continente Mato Grosso, com cartografias temáticas e etnoterritoriais; - O Largo do Rosário, em Cuiabá, com oficinas participativas e reconstruções digitais (incluindo subcasos como a Casa Singer e a Ilha da Banana); - Vila Bela da Santíssima Trindade, com análise do processo de ruína e documentação arqueológica; - O Forte de Iguatemi, levantado remotamente por imagens de satélite e dados topográficos; - A Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde um gêmeo digital permitiu diagnosticar a sua paginação em pedra portuguesa; - A antiga Escola Agrícola da UNEMAT, em Barra do Bugres, validando a abordagem em relevência cultural local. Esses experimentos mostraram que é possível produzir inventários digitais consistentes, comparáveis e aplicáveis em diferentes escalas, mesmo com restrições orçamentárias. O valor da pesquisa está em consolidar um modelo conceitual viável, que combina teoria cibernética, critérios de validação científica e workflows digitais já empregados em escala internacional. Mais do que preservar objetos isolados, a tese propõe um novo patamar de inventariação digital, no qual o patrimônio é documentado como parte de sistemas vivos e interdependentes, com potencial de apoiar políticas públicas, gestão comunitária e processos educativos. Trata-se, em última instância, de tornar viável a memória cultural em tempos digitais, reconhecendo o patrimônio não só como herança do passado, mas também como parte do devir coletivo – aquilo que denominei de "As-Becoming", conceito cunhado nesta tese para expressar o patrimônio em transformação, aberto ao futuro, às mudanças e às possibilidades.