Os papéis de organização e economização da contabilidade para a descarbonização de grandes ofensores climáticos (Original:The organizing and economizing roles of accounting for decarbonization of big climate offenders)
Nome Completo:
José Luiz Borsatto Junior
Unidade da USP:
Faculdade de Administração, Economia e Contabilidade (FEA)
Programa de Pós-Graduação:
Controladoria e Contabilidade
Nível:
Doutorado
Resumo:
Crise climática: como a contabilidade pode transformar poluidores em agentes da descarbonização As mudanças climáticas já fazem parte do nosso dia a dia, manifestando-se em eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos, como as enchentes no Rio Grande do Sul e as secas na Amazônia. A ciência alerta há décadas para esta realidade. Nesse cenário, as grandes corporações têm uma relação de mão dupla com o clima: ao mesmo tempo que impactam o planeta, sendo fontes significativas de emissões de gases de efeito estufa, elas também dependem de um clima estável para serem economicamente viáveis e garantirem sua sobrevivência a longo prazo. Frequentemente vistas como parte do problema, poderiam elas ser também parte crucial da solução?. A resposta para essa transformação pode estar em um lugar inesperado: a contabilidade. Longe de ser apenas uma ferramenta para registrar o passado ou calcular impostos, a contabilidade tem o poder de moldar o futuro das empresas e do nosso planeta. Minha pesquisa de doutorado investigou exatamente como as práticas contábeis podem viabilizar a descarbonização de grandes empresas poluidoras. O segredo está em traduzir a ação climática para a linguagem que as empresas entendem: a financeira. A contabilidade permite calcular não apenas os custos de não fazer nada – como perdas de produtividade por secas ou danos a ativos por enchentes – mas, principalmente, os lucros de agir. A descarbonização deixa de ser vista apenas como um custo e se torna um investimento com retorno financeiro, capaz de aumentar a produtividade, reduzir riscos e criar valor para a companhia. Com isso, a contabilidade organiza a transição para uma economia de baixo carbono. Ela ajuda a criar planos de ação climática com metas claras para reduzir emissões, monitorar o progresso com métricas concretas e avaliar o desempenho, garantindo transparência e combatendo o chamado "greenwashing" (a maquiagem verde). Minha pesquisa analisou um caso prático: um fundo de investimento que, em vez de simplesmente excluir empresas poluidoras de seu portfólio, investe nelas com o objetivo de transformá-las em agentes da descarbonização. Usando ferramentas contábeis e financeiras, o fundo demonstra para os executivos que adotar práticas sustentáveis, como agricultura regenerativa ou o rastreamento da cadeia de fornecedores para evitar o desmatamento, é economicamente vantajoso. Esse processo de engajamento colaborativo mostra como o capital pode ser um catalisador para a mudança real na economia, em vez de apenas desviar do problema. Portanto, a contabilidade não é uma mera ferramenta de registro, mas uma força ativa que molda o comportamento das empresas e a dinâmica do mercado. Ao tornar a descarbonização um objetivo mensurável, gerenciável e economicamente viável, ela cria as condições para que as decisões de investimento e as estratégias corporativas se alinhem com um futuro mais justo e sustentável. É a prova de que, para enfrentar a crise climática, também precisamos de novas contas.