Roça e inovação: do empreendimento universal e racionalizante à emergência de uma assentopia local e singular
Nome Completo:
Neiza Cristina Santos Batista
Unidade da USP:
Instituto de Psicologia
Programa de Pós-Graduação:
Psicologia Social
Nível:
Doutorado
Resumo:
A pesquisa realizada com famílias assentadas da reforma agrária no Baixo São Francisco, em Sergipe, traz à tona reflexões profundas sobre colonialidade, desenvolvimento e inovação. O estudo, que tinha como objetivo inicial entender como essas famílias poderiam contribuir com um modelo de inovação na pesquisa agropecvuária pública, termina por destacar os riscos da desconexão entre a ciência e as realidades locais. Desde 1990, a Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) tem promovido um modelo de desenvolvimento que ignora saberes e práticas locais, impondo uma lógica colonizadora que marginaliza conhecimentos ancestrais. A pesquisa critica essa visão universal e racional, que, sob a bandeira do progresso, homogeneiza modos de vida e apaga a diversidade cultural. Assim, embsada em autoras em autores do sul global, a pesquisa enfatiza a necessidade de valorização das localidadeses, das vozes das comunidades e do respeito à oralidade. A pesquisa se baseou nas histórias de 17 famílias de um assentamento da reforma agrária, do Baixo São Francisco Sergipano, que revelaram , o termo "inovação" como uma palavra sintética, ou seja, que não ressoava naquele contexto. Ao contrário, a "roça" se destacou como palavra semente, representando para aquele coletivo um símbolo de diversidade, resistência e dignidade. As famílias demonstraram, também, uma relação seletiva com as tecnologias, adotando aquelas que atendem às suas necessidades, fossem elas tecnologias científicas, ancestrais ou embasadas no conhecimento popular camponês. Junto a isso, praticam uma economia baseada na solidariedade e coletividade, reforçando a importância das relações sociais em suas vidas diárias. Inspirada por ideias da Psicologia Social Latino-Americana e pelo livro "Afrotopia", de Felwine Saar, a pesquisa cunha o conceito de "assentopia". Esta utopia valoriza as singularidades locais e as capacidades das comunidades, desafiando o modelo homogêneo da modernidad, ressaltando a responsabilidade de compartilhar conhecimentos, mas também a importância de aprender com as comunidades. O estudo propõe que é possível construir futuros diversos (futuridades), baseados nos sonhos e saberes de cada localidade. Essa pesquisa não só contribui para o campo acadêmico, mas também se posiciona como um manifesto em defesa da valorização das práticas locais e da construção de um futuro que respeite as ancestralidades e a diversidade cultural, inspirando reflexões sobre a importância dos conhecimentos, resistência e da coletividade dos povos originários e afrodiaspóricos.