Sobre o cuidado em liberdade: percepções de moradores de um serviço residencial terapêutico, de profissionais da sua rede assistencial e de pessoas da comunidade
Nome Completo:
CAMILA MAIA FREIRE
Unidade da USP:
TERAPIA OCUPACIONAL
Programa de Pós-Graduação:
Programa de Pós-Graduação Terapia Ocupacional e Processos de Inclusão Social
Nível:
Mestrado
Resumo:
O Serviço Residencial Terapêutico (SRT) é uma das principais ações da política brasileira de desinstitucionalização, criada pelas Portarias 106/2000 e 3090/2011. Seu objetivo central é oferecer uma moradia que garanta convivência social, reabilitação psicossocial e o resgate da cidadania de pessoas que viveram longos períodos em instituições psiquiátricas. Este trabalho busca compreender como moradores de um SRT, pessoas da vizinhança e profissionais da Rede de Atenção Psicossocial percebem as ações e interações que acontecem no cotidiano da residência e no território. A pesquisa é qualitativa, de caráter exploratório, desenvolvida como um estudo de caso. A coleta de dados ocorreu de duas formas: a) registro em diário de campo da pesquisadora, com anotações sobre o cotidiano dos moradores; b) realização de dois grupos focais. O primeiro contou com a equipe da residência, um representante da vizinhança e profissionais do CAPS e da UBS. O segundo grupo foi composto pelos moradores do SRT. Os encontros discutiram ações e relações estabelecidas na casa e no território, além de fatores que dificultam ou facilitam o cuidado. Utilizou-se triangulação metodológica para aumentar a confiabilidade da pesquisa. O perfil dos moradores foi analisado de forma descritiva, enquanto os demais dados, provenientes do diário de campo e dos grupos focais, foram examinados por meio de análise temática. Os resultados mostraram que os moradores têm perfis diversos. Sete deles vieram de longas internações psiquiátricas, de no mínimo 18 anos, e um foi encaminhado por decisão judicial após oito anos internado. As análises revelam que muitas das ações e interações no SRT e no território ainda são influenciadas pela violência vivida nas instituições e pelo estigma da loucura, que permanece forte na sociedade. Os relatos dos participantes e as cenas registradas no diário de campo mostram que, tanto no SRT quanto em outros serviços da RAPS, ainda existem práticas que lembram o modelo manicomial. Entre elas, decisões e atividades definidas pelos profissionais, e não pelos moradores, o que reforça tutela, dependência e superproteção. Apesar disso, também surgem práticas que caminham no sentido oposto: ações que respeitam as singularidades e o tempo de cada pessoa, incentivam autonomia, liberdade de escolha, expressão de desejos e a construção de projetos de vida. Essas práticas aparecem especialmente nas falas dos moradores, de profissionais e da pessoa da comunidade participante do estudo. Diante desses achados, foi proposta a criação de oficinas de sensibilização para gestores e profissionais, voltadas à apresentação e discussão de um instrumento de gestão que permita mapear, monitorar e qualificar práticas de cuidado em liberdade. Conclui-se que os resultados deste estudo podem ampliar as possibilidades de cuidado aos moradores do SRT, fortalecendo projetos de vida, redes de apoio e garantia de direitos, sempre na perspectiva do cuidado em liberdade.
Área de concentração: Terapia Ocupacional, Contextos Comunitários e Inclusão Social Linha de pesquisa: Participação social, Trabalho, Convivência e Cuidado.