Silenciamentos Da Bôta Efeitos do discurso pedagógico nas comunidades ribeirinhas amazônicas do século XVI ao XXI
Nome Completo:
Zaline do Carmo dos Santos Wanzeler
Unidade da USP:
Faculdade de Educação FEUSP
Programa de Pós-Graduação:
em Educação
Nível:
Doutorado
Resumo:
Nessa tese, propusemo-nos a estudar os silenciamentos do mito amazônico da Bôta e a sua consequência para a educação ribeirinha. Nós o fizemos a partir de uma abordagem discursiva, compreendendo que os mitos amazônicos, historicamente construídos na oralidade e na experiência compartilhada familiar, têm tido, tradicionalmente, uma importante função educativa para os ribeirinhos amazônicos. Postulamos que, como o discurso pedagógico tende a não legitimar os saberes tradicionais, os mitos não entraram nos currículos escolares em igualdade de condições com os demais conteúdos, e é possível que, influenciadas por esse discurso, as pessoas tenham parado de os narrar com frequência, mesmo fora do espaço escolar, por julgá-los pouco importantes ou, mesmo, vergonhosos. A partir dessa preocupação, interessamo-nos em interrogar se a função educativa dos mitos ainda estaria preservada na atualidade das comunidades ribeirinhas. Tendo essa questão em conta, assumimos como objetivo geral ponderar a respeito dos efeitos da instauração social do discurso pedagógico em comunidades ribeirinhas amazônicas, em especial os silenciamentos do mito da Bôta. Para tanto, estabelecemos os seguintes objetivos específicos: a) analisar as imagens do personagem Bôta presentes no corpus; e b) descrever os modos de silenciamentos da Bôta encontrados no corpus, correlacionando-os com as alterações da função educativa de mitos amazônicos nas comunidades ribeirinhas. O corpus é constituído de 120 recortes discursivos, provenientes: a) de escritos de viagens do século XVI ao XIX; b) de estudos acadêmico-científicos de brasileiros (séculos XIX e XXI); c) da transcrição de versões de narrativas orais de histórias de Bôta que circulam em cidades ribeirinhas paraenses; e d) das narrativas orais da personagem Bôta contadas por crianças ribeirinhas, frequentadoras de uma oficina de formação do leitor literário. Por meio da análise, sintetizamos sete modos de silenciamento da Bôta: silenciamento progressivo de sua dimensão mítica, ancestral e simbólica; silenciamento pela negação (na escola); silenciamento pela desqualificação da fala infantil; silenciamento pelo deslocamento morfológico do feminino para o masculino; silenciamento pelo deslocamento semântico; silenciamento pelo controle narrativo masculino; e silenciamento pela naturalização da violência. Nossa análise dos recortes permitiu-nos observar, tendo tomado o mito da Bôta como exemplo, que suas lições, ao serem silenciadas, correm o risco de não serem mais aprendidas pelos habitantes das comunidades ribeirinhas. Assim, deram-se silenciamentos dos saberes que teriam sido transmitidos de modo mais lúdico, caso o estado anterior de coisas houvesse sido conservado. Por conseguinte, pensamos que a ausência da circulação do mito da Bôta exige reformulação de práticas e ressignificação de saberes nas comunidades.