1. Introdução

Tendo o planejamento como principal instrumento norteador expresso nos Planos Nacionais de Pós-Graduação (PNPG) da CAPES, a pós-graduação brasileira tem se destacado ao longo de seus 70 anos de existência, em grande parte, graças às políticas públicas na área de ensino e pesquisa científica. A pós-graduação no Brasil tem seguido trajetória de expansão qualificada e contínua, combinando a demanda espontânea a ações indutoras da redução de desigualdades regionais.

Ao longo desse período, a pós-graduação na USP consolidou-se como referência de qualidade para o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG). A dedicação à formação de excelência associada a atividades de pesquisa científica em temas de relevância social em mais de 260 Programas de Pós-Graduação (PPGs) tem pautado a atuação da Pró- Reitoria de Pós-Graduação (PRPG) na gestão do sistema. Esse comprometimento permitiu, ao longo do tempo, o avanço contínuo dos PPGs da USP, orientando seu crescimento de maneira sustentável e alinhando-o às necessidades estratégicas de desenvolvimento do Estado de São Paulo e do país.

Instrumentos de Aprimoramento

Assim, alguns instrumentos são necessários para o contínuo aprimoramento da pós-graduação da USP e salto de qualidade:

  1. O seu planejamento estratégico, definindo seus objetivos e processos para atingi-los;

  2. A autoavaliação, quando o PPG em conjunto (docentes, pós-graduandos e servidores) tem a oportunidade de ação reflexiva para compreender suas fragilidades, oportunidades e potencialidades e estabelecer ações.

Foi com essas diretrizes em perspectiva que a PRPG-USP conduziu a autoavaliação da pós-graduação em 2024.


2. Aspectos Cruciais da Avaliação

Há dois aspectos cruciais a serem considerados na avaliação da pós-graduação da USP.

  • Complementaridade Institucionais: A relação entre os processos de avaliação da CAPES e a autoavaliação institucional, bem como a relação entre a autoavaliação e o planejamento estratégico institucional da pós-graduação. A introdução de processos robustos de autoavaliação faz parte de uma estratégia para fortalecer a conexão da pós-graduação da USP com a visão de futuro da universidade e com as demandas da sociedade, além dos critérios de avaliação da CAPES.

  • Plano estratégico institucional: A autoavaliação, quando integrada ao planejamento institucional, pode ser uma ferramenta poderosa para a contínua qualificação e consolidação dos PPGs da USP, respondendo às novas demandas. O plano estratégico institucional de pós-graduação deve ser um elemento fundamental no processo avaliativo e servir como referência para a autoavaliação dos PPGs na USP. Este plano deve delinear políticas e estratégias para o desenvolvimento da pós-graduação na universidade, conectando o conhecimento gerado com as demandas da sociedade, e deve ser aprovado nas instâncias colegiadas superiores da instituição.

Neste contexto, o processo de autoavaliação é essencial para o diagnóstico do estado atual da pós-graduação e para o planejamento futuro, considerando-se também que, apesar do planejamento, novos fatores surgem e precisam ser enfrentados com flexibilidade e novos planos. Trata-se de um momento importante de reflexão que permite o direcionamento das ações estratégicas da pós-graduação e é parte da busca da melhoria contínua de seus programas. Já foram realizados dois ciclos, concluídos em 2017 e 2019, respectivamente, e que trouxeram ganhos expressivos para a pós-graduação da USP.

Engajamento e Mitigação de Riscos

Outro objetivo implícito na autoavaliação é a busca pelo engajamento da comunidade acadêmica na discussão dos rumos da pós-graduação. Vale lembrar que a autoavaliação é também um requisito da própria CAPES, que espera que os PPGs façam a análise de seus pontos fortes e fracos, e que façam o alinhamento com os objetivos da instituição.

A autoavaliação, por se tratar de uma atividade realizada internamente, corre o risco de viés, superestimando qualidades e ignorando pontos cegos. Para mitigar esse risco, a autoavaliação deve considerar o contexto no qual os programas se inserem, tanto da sua evolução histórica quanto dos demais programas na sua área de avaliação. Além disso, é importante que haja uma análise externa ao programa, ou mesmo à universidade, sobre o seu planejamento e a qualidade de sua formação.


3. Metodologia: As Cinco Fases

Ao longo do primeiro semestre de 2024, a PRPG conduziu a autoavaliação da pós- graduação, em complemento às eventuais atividades individuais dos PPGs. O objetivo principal é aprofundar o conhecimento sobre cada um dos programas, ressaltar os pontos fortes e fracos, indicar potenciais melhorias e eventuais inovações, e estabelecer um plano de ação. A autoavaliação foi conduzida em cinco fases:

  1. Coleta e análise de informações dos programas: Essa fase foi realizada entre 10/janeiro e 15/março. Foram solicitados aos programas que fornecessem informações relativas à sua organização, seu contexto de atuação, evasão, processo seletivo, processo formativo, alocação profissional dos egressos, entre Foram enviados formulários online para o preenchimento pelo coordenador (ou alguém designado por ele). Também foram fornecidas aos PPGs informações sobre o seu desempenho baseadas em dados do sistema Coleta CAPES analisados pelo APOEMA disponível em (https://sistemas.prpg.usp.br/apoema-pg/), é um Sistema de Apoio Estratégico à Medição e Análise da Pós-Graduação), dados históricos do sistema Janus e o parecer da última avaliação quadrienal sobre o PPG. Com base nessas informações disponibilizadas, foi pedido aos PPGs que estabelecessem seu planejamento estratégico e mecanismos de acompanhamento de egressos. Os programas foram estimulados a envolver ao máximo os seus orientadores, se possível, em reuniões e debates.

  2. Parecer externo: Essa fase foi realizada entre 20/março e 10/abril. Três pareceristas externos ao programa foram convidados a analisar os dados enviados e emitir um parecer sintético sobre o programa. Foi sugerida a indicação de ao menos um parecerista externo à USP, de forma a se obter diferentes visões sobre o programa.

  3. Relatoria: Essa fase foi realizada entre 20/abril e 05/maio. Um membro do conselho de pós-graduação ficou responsável por relatar (sintetizar) os pareceres de um grupo de PPGs. A relatoria é necessária para permitir que todos os programas fossem analisados e destacados os pontos de maior atenção.

  4. Workshop presencial: Foi realizado em 21/junho, em São Pedro/SP. O evento teve início com uma apresentação sintética da situação atual da pós-graduação na USP e dos pontos mais relevantes observados durante a autoavaliação. Também houve apresentações do Alumni USP, do catedrático Paschoal Senise, Prof. Jorge Audy, sobre inovação na pós-graduação e do diretor de avaliação da CAPES, Prof. Antonio Gomes. Posteriormente, os coordenadores foram divididos em grupos para discutirem os 10 temas críticos mais comuns e relevantes identificados na autoavaliação para traçarem estratégias.

  5. Aprovação do Relatório de Avaliação: Acompanhado de ações pelo Conselho de Pós-Graduação.

4. Síntese dos Resultados 2024

O ciclo contou com a participação de todos os PPGs da USP

  • Pareceres Recebidos: Todos os programas receberam ao menos um parecer. Do total, 46% receberam três pareceres; 34% receberam dois pareceres; 20% receberam um parecer. Além disso, todos os programas receberam a relatoria por um membro do CoPGr.

  • Avaliação Qualitativa:
Categoria
Adequado Parcialmente Adequado Inadequado
Planejamento Estratégico 71% 27% 2% (6 PPGs)
Acompanhamento de Egressos 68% 30% 2% (7 PPGs)

De um modo geral, o sistema foi avaliado como consolidado. As análises indicam grande potencial na área de inovação, geração de startups e perfil empreendedor. Destacam-se os PPGs de excelência internacional (conceitos 6 e 7).


5. Desafios 

Diversos avanços relatados indicam a importância do compartilhamento de experiências e boas práticas entre os PPGs, e esses espaços de interação devem ser incentivados.

Os pareceres e relatos também destacaram alguns temas gerais, que permeiam o conjunto dos PPGs e que se constituem em importantes desafios do SNPG na atualidade, dentre os quais destacamos:

  • Flexibilidade e Inovação: É preciso estimular mais a flexibilidade dos processos de formação e de capacitação nas interfaces entre as diferentes áreas do conhecimento e para as constantes novas demandas da sociedade. É preciso valorizar os processos inovadores de tal forma a construir um modelo O ambiente requerido para os processos de capacitação nas décadas passadas, que existia somente fisicamente nos departamentos, hoje envolve diferentes formas que vão desde as interações virtuais, passando pelo modelo híbrido, até uma nova interlocução dentro e entre as instituições, compartilhando créditos e pesquisa.

  • Conexão com a Sociedade: É preciso analisar em profundidade, em todas as áreas do conhecimento, as mudanças que ocorreram nas demandas da sociedade, visando a retomar a conexão entre o perfil do pós-graduando que formamos e as demandas de uma sociedade em profunda transformação, em especial no mercado de Necessitamos uma nova pós-graduação para uma nova sociedade.

  • Coalizões Criativas: É preciso pensar em coalizões criativas em que todos, gestores, docentes, pós- graduandos e técnicos, são continuamente capacitados; é preciso inovar a gestão e a formação e ir além dos modelos convencionais. Isso pode envolver uma estratégia coerente e objetiva de fusão de PPGs que atuam na mesma área de conhecimento, sempre que esta união tenha potencial de resultar em benefício para a formação qualificada de pesquisadores e a agilização e eficácia no uso de no uso de recursos.

  • Financiamento: É preciso diversificar e flexibilizar o financiamento. Instituições interagindo com diferentes atores podem gerar novas formas de fomento destinadas à formação de alto nível necessária para que as organizações se mantenham relevantes.

  • Terceira Missão: É preciso entender a inovação e a interação com a sociedade no contexto da terceira missão da Universidade (extensão), que complementa as demais missões (ensino e pesquisa), sendo igualmente relevante. Neste sentido, se abre todo um novo leque de possibilidades, que requer uma aproximação e uma intencionalidade estratégica na consolidação, organicidade e atuação dos ambientes de inovação da Universidade (como Parque Científico e Tecnológico, Incubadoras, Centro de Inovação, Agência de Inovação e Centros de Pesquisa Avançados). 

6. Ações por Grupos Temáticos (Metodologia GUT)

A síntese das ações identificadas nos pareceres, nos relatórios, bem como a discussão presencial (com a metodologia GUT - Gravidade, Urgência e Tendência) é apresentada abaixo. 

  • Grupo 1: Melhoria da Visibilidade e Atração de Candidatos: Os PPGs podem aumentar a captação de alunos e tornarem-se mais atrativos através de diversas ações. É importante analisar individualmente cada PPG para identificar necessidades específicas e estabelecer políticas claras, por exemplo, para discentes que trabalham, a fim de evitar evasão. Definir, divulgar e implementar ações afirmativas de forma mais eficaz é crucial. Estimular a iniciação científica nos cursos de graduação e disciplinas e atividades conjuntas pode despertar o interesse de graduandos pela pós-graduação. Flexibilizar a exigência da proficiência em línguas específicas no ingresso pode ampliar o acesso. Aplicar uma política de doutorado direto e mudança de nível pode tornar o ingresso na pós-graduação mais atrativo ao diminuir sensivelmente o tempo total de formação.

  • Grupo 2: Métodos de Acompanhamento dos Egressos: O acompanhamento de egressos é peça fundamental na avaliação do sucesso do programa, uma vez que permite verificar se os objetivos formativos estão alinhados com a realidade. Assim, são importantes ações para aprimorar o acompanhamento de egresso, incluindo: a análise da possibilidade de usar múltiplos canais para o acompanhamento de egressos (tais como, telefone, e- mail, redes sociais, plataformas acadêmicas como Lattes e, principalmente, o Alumni USP); o investimento em ferramentas apropriadas para levantamento de informações sobre egressos, como questionários online e feedback dos empregadores; a realização de uma análise detalhada e regular da atuação dos egressos para avaliar o impacto do programa; a elaboração de políticas específicas de acompanhamento de egressos, com metas claras e estratégias de rastreamento sistemático; a organização de eventos e mesas redondas com egressos e alunos atuais para discutir trajetórias profissionais e reforçar o vínculo com o programa.

  • Grupo 3: Aprimoramento da Coleta de Dados: A coleta e disponibilização de dados é um tema de extrema importância para todos os PPGs, principalmente para os grandes programas. Ações visando a melhoria na coleta de dados incluem: a conscientização dos orientadores para o correto preenchimento do Lattes e demais informações pedidas pelos coordenadores; o treinamento do secretariado para a utilização de ferramentas para a extração de informações para o preenchimento do Sucupira; a atuação frente à CAPES para possibilitar o preenchimento automático de dados de sistemas da USP e de outras base de dados.

  • Grupo 4: Aprimoramento da Política de Credenciamento: O corpo docente qualificado é essencial para a qualidade da formação dos discentes. Além disso, há a necessidade de renovação contínua dos quadros docentes, seja pela implementação de políticas para a atração de novos docentes (novos credenciamentos) e o incentivo à qualificação dos atuais, incluindo pós- doutorado e concursos de livre docência. É importante ressaltar a necessidade de revisão constante das regras de credenciamento, considerando as barreiras que impedem a entrada de recém-contratados e de pesquisadores externos.

  • Grupo 5: Fortalecimento de Colaborações e Parcerias: Com o objetivo de estimular a formação de maior impacto e contribuir com a sociedade, é essencial o estabelecimento de parcerias nacionais e internacionais. Nessa linha, deve-se incentivar ações que incluem projetos de cooperação e acordos de dupla titulação; a organização de eventos conjuntos; a exploração de cooperações com outras instituições de ensino superior, em especial em regiões carentes; o incremento dos convênios e parcerias com empresas públicas e privadas; o desenvolvimento de estratégias para a aplicação translacional de tecnologias geradas, transferindo o conhecimento gerado na USP para a sociedade; o estímulo à criação e desenvolvimento de startups nos ambientes de inovação da Universidade.

  • Grupo 6: Aumento da Interdisciplinaridade: A interdisciplinaridade é primordial para a solução de problemas que transcendem o escopo de uma área do conhecimento. O incremento da interdisciplinaridade é importante para que os programas possam se manter atualizados com temas essenciais para a sociedade. Dentre as ações nesse contexto, incluem-se: o fomento da coorientação, a inclusão de disciplinas (obrigatórias) com conteúdo voltado à interdisciplinaridade, ministradas por docentes de diferentes áreas, e oferecidas por diferentes PPGs (disciplinas inter-PPGs); o relaxamento no limite de número de orientados por docente; o oferecimento de maior número de editais interdisciplinares ou indutores da interdisciplinaridade, bem como voltados a ODS.

  • Grupo 7: Melhoria na Infraestrutura e Suporte Administrativo: O apoio técnico é essencial para a condução da pós-graduação da USP. Portanto deve-se incentivar ações para melhorar o suporte à gestão dos PPGs, incluindo: simplificação dos procedimentos para a celebração de convênios; a facilitação da captação de recursos externos; a atualização dos sites dos programas para refletir ações e políticas atuais; e o treinamento dos funcionários em funções especializadas (como convênios, acompanhamento dos egressos etc.) para atuar em todos os programas da unidade.

  • Grupo 8: Produção Científica Qualificada e Captação de Recursos Financeiros: A produção científica, ainda que não seja a meta final do programa de pós- graduação, é um parâmetro adequado para medir a atualidade e relevância do processo formativo. Dentre as ações nessa linha, temos o incentivo à cooperação e consequente coautoria entre diferentes docentes e pós-graduandos para aumentar a produção científica conjunta; o aprimoramento da divulgação científica, incluindo a divulgação de teses; a realização de workshops de redação científica para melhorar a produção docente e discente em periódicos de alto impacto.

  • Grupo 9: Inovação e ODS: É importante que PPGs amadureçam uma discussão interna sobre a sua vocação em relação à inovação em suas atividades. Ações nesse contexto incluem: a identificação dos produtos de inovação do programa, nas várias dimensões que pode ter; a valorização de produtos educacionais como produtos de inovação; a identificação dos ODS nos quais o PPG atua.

  • Grupo 10: Popularização da Ciência e Inserção Social: A complexidade dos problemas atuais levam à necessidade de abordagens interdisciplinares na busca de soluções com impacto social. Dessa forma, são importantes ações de estímulo à atuação interdisciplinar que gerem benefícios para a sociedade, identificando e resolvendo problemas complexos. Além disso, é necessário desenvolver atividades de popularização da ciência e melhorar a inserção local e regional, bem como estabelecer ações para aumentar o impacto social do programa, incluindo atividades de extensão na pós-graduação.

7. Deliberações e Considerações Finais

Deliberações

Recomenda-se que o CoPGR aprove resolução que institucionalize o processo de autoavaliação e determine sua periodicidade nos seguintes termos:

  • Acompanhamento 2026 (e depois quadrienalmente), na qual os programas devem verificar o cumprimento do seu planejamento e propor ajustes, se necessários;

  • Novo ciclo de avaliação em 2028 (e depois quadrienalmente), preferencialmente após os seminários de meio-termo da CAPES;

  • Disponibilização do material via sistema Janus para coordenadores e presidentes de CPG atuais e futuros.

Considerações Finais

Apesar de o SNPG ser caracterizado por um sistema regulatório rígido, identificamos diversas iniciativas criativas nos nossos PPGs. Estes avanços devem ser compartilhados como boas práticas. Em um modelo contemporâneo, mais interdisciplinar e dinâmico, é essencial repensarmos qual modelo de pós-graduação queremos, exercendo a autonomia possível de instituições sólidas para olhar para o futuro e atender às demandas da comunidade.


Acesse o documento Autoavaliação em: https://www.prpg.usp.br/attachments/article/9795/Autoaavaliacao-PRPG-USP-2024.pdf

Fonte: PRPG