Valores em disputa na ordem capitalista antes da crise de 2008: uma análise fílmica sociológica de Clube da Luta, Menina de Ouro e Pequena Miss Sunshine
Nome Completo:
Hugo Cavalcanti Bispo
Unidade da USP:
Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)
Programa de Pós-Graduação:
Sociologia
Nível:
Doutorado
Resumo:
Minha tese investiga um tema que afeta diretamente a vida de todas as pessoas: como o capitalismo continua funcionando mesmo quando gera insatisfação, desigualdades e crises. Para entender isso, analiso três filmes estadunidenses que foram sucesso de público e crítica — Clube da Luta, Menina de Ouro e Pequena Miss Sunshine —, produzidos na década anterior à crise de 2008, quando a ordem capitalista, em sua variante neoliberal, reinava aparentemente inconteste. A pesquisa mostra que esses filmes ajudam a revelar uma parte das crenças e valores circulantes na sociedade ocidental naquele período e como eles influenciavam (e eram influenciados por) a forma como as pessoas entendiam temas como justiça, sucesso, risco, mérito, família e relações entre gêneros. O método foi analisar como essas histórias são construídas, através de imagens e sons, e da forma como grupos e instituições sociais são colocados em relação na narrativa. As expressões ideológicas dos filmes mostraram que há dificuldade em se pensar alternativas à ordem neoliberal, o que se mantém até hoje, conforme vários autores. É como se os conjuntos de valores que sustentavam a velha ordem estivessem desgastados sem que um novo conjunto houvesse se consolidado. Os filmes dão algumas pistas para entender a situação. Um dos motivos é que muitas soluções trazidas nas narrativas para lidar com as adversidades ligadas ao contexto econômico se mostraram presas a alguns valores dessa própria ordem capitalista que a narrativa critica. Assim, nos três filmes, chama atenção que as soluções se dão pelo estabelecimento de relações afetivas entre indivíduos – relações essas, porém, que não são mediadas por instituições ou grupos ou movimentos sociais. Ademais, é frequente o uso constante de gramáticas e lógicas empresariais. A investigação dessas expressões ideológicas através dos filmes analisados permitiu, portanto, perceber uma convergência de crenças quanto à incapacidade do mercado de cumprir as promessas de garantir o bem-estar individual e coletivo, talvez a justificação mais importante da ordem capitalista neoliberal. Ao mesmo tempo, porém, o mercado é construído como invencível. Quanto ao Estado (cujo protagonismo amiúde aparece como uma alternativa à predominância no mercado), verificou-se também uma descrença unânime em sua capacidade de contribuir para uma sociedade melhor. A contribuição social da pesquisa está em tornar visível esse embate de valores. Compreender o que nos leva a aceitar determinadas formas de vida — e o que nos leva a questioná-las — abre espaço para debates públicos mais informados sobre trabalho, políticas sociais, saúde mental, desigualdade e a importância das relações coletivas. Ao dialogar com obras populares que marcaram época, a tese mostra que o cinema nos ajuda a entender como pensamos, sentimos e justificamos o mundo em que vivemos. E, ao tornar esse processo mais claro, abre caminhos para imaginar futuros mais justos e menos excludentes.